Educação Musical nas Escolas: Obrigatoriedade x Realidade

Imagem Música

Em 18 de agosto de 2008, a lei 11769 tornou obrigatório o ensino de música, na educação básica tendo as escolas o prazo até 2012 para se adaptarem a essas novas exigências. Essa é uma das maiores conquistas que a educação musical brasileira alcançou, porém o país não comporta educadores musicais o suficiente para suprir a demanda que temos hoje.

E agora o que fazer?

O grande problema em questão está relacionado à história da educação brasileira que é marcada por uma série de descontinuidades, que caminharam para várias direções. Uma delas é inexistência de políticas públicas para a educação no início da formação do Povo brasileiro, sendo, portanto, um dos determinantes na construção da nossa identidade educacional desigual e elitista. E a Educação Musical foi uma das vítimas desse sistema opressor que não incentivou a criação e ampliação dos cursos de Licenciatura em Música no país. Para Victório, ( 2011, pg. 09);

“Saber que a música encerra um caráter lúdico, prazeroso, não é suficiente para garantir um ensino de música que contemple as qualidades que ela traz em si. Ensinar música é coisa séria! A lei garante a Educação Musical nas escolas, mas, enquanto as escolas de Música não formarem professores de Música em quantidade suficiente para atender à demanda da lei, a qualidade desse ensino em larga escala poderá ficar comprometida”.

De qualquer forma, após séculos de luta, a Educação Musical passa a ter um outro olhar, e um novo sentido na escola, o que incentiva a sociedade a cobrar e discutir o direito dessa atividade no âmbito da educação básica do país. Portanto, cabe assim, ao poder público, instituições privadas e sociedade civil discutir e investir na ampliação dos cursos de graduação em música, como também promover formações continuadas, produzir bibliografias sobre a área musical, entre outras ações que poderão viabilizar o desenvolvimento de uma educação-educações consistente no nosso país tão rico musicalmente, repleto de ritmos e estilos musicais.

Assim,, diante da escassez de professores com formação na área de Educação Musical, venho desenvolvendo o projeto Sons Mágicos que promove cursos de formação de professores e venda de instrumentos musicais para aulas de Musicalização.  Nesse trabalho todos instrumentos são feitos artesanalmente, auto-sustentáveis e com um custo de fabricação baixo, tornando os instrumentos mais barato. A priori a intenção era apenas fornecer os instrumentos para as escolas. No entanto, surgiu a pergunta:

Como vender os instrumentos para escolas que não têm professores de música?

Após a aprovação da lei, o sistema educacional está com dificuldades de encontrar esses profissionais. E assim surgiu a ideia da formação para professores. Na compra de um kit de instrumentos a escola ganha um curso de formação para professores regentes e todo corpo docente. Um curso com módulo, planos de aulas, jogos musicais, contação de histórias com os instrumentos e confecção de instrumentos com materiais reutilizados.

https://www.youtube.com/watch?v=74Wi7IUfwHQ

Através da Sons Mágicos, desenvolvo esses projetos, pois vemos que a música na Educação configura-se como algo relevante, é uma experiência que lida diretamente com emoções, sentimentos e afetos capazes de dialogar e construir nas pessoas oportunidades de perceber o mundo de forma cada vez mais diverso e criativo. É importante ressaltar, que a linguagem musical se desenvolve a partir de práticas e vivências orientadas por meio do manuseio de instrumentos musicas, apreciação e percepção de sons diversos, criação e reprodução de sons, entre outras coisas.

“Nesse sentido, ensinar música nas escolas significa ensinar o indivíduo a construir e conquistar sua autonomia de criador e intérprete de sua própria trama musical, inserido na grande sinfonia da vida da qual todos participamos. Cada situação proporcionada pela vivência dos elementos sonoros se constitui em uma oportunidade de aprender e ressignificar preconceitos em busca de tramas sonoras cada vez mais harmônicas, envolvendo nesse processo, tanto sons considerados universais como sons característicos de um determinado grupo ou de nossa cultura”. (VICTÓRIO, 2011, p. 26)

A Música pode ser um ponto de partida para o desenvolvimento de relações pessoais e interpessoais como também contribuir no processo e ensino-aprendizagem. Desse modo, para o educador, a atividade musical deve partir dos princípios de vida em que a música se une ao ser humano como parte integrante de sua formação, devendo ser trabalhada desde tenra idade. Assim, temos instrumentos para todas as idades. Instrumentos leves para crianças menores:

https://www.youtube.com/watch?v=2cZR0Lg4waM

Instrumentos para crianças com faixa etária maior onde necessita e desenvolve habilidades motoras com execução de melodias simples:

https://www.youtube.com/watch?v=EQND6JXrCSM

E pra adolescentes e adultos também:

https://www.youtube.com/watch?v=xT-MQ3c81qQ

São todos instrumentos didáticos. A intenção é utilizar os instrumentos como forma de apreciação dos timbres em histórias como recurso sonoplástico, execução de música e acompanhamentos com os instrumentos. Mas a educação musical na sala de aula não inicia e tampouco se encerra na utilização dos matérias da Sons Mágicos. Os alunos precisam além de conhecer os instrumentos, também necessitam de aprender sobre os parâmetros do som com os próprios instrumentos, outros matérias e sons do seu cotidiano.

Por exemplo: O bongô tem dois sons um grave e um agudo, os metalofones tem som forte e agudo e o pau de chuva tem um som longo. Mas como fazer com que os alunos tenham essa percepção?

A educação musical tem vários caminhos, várias possibilidades para explorar com os estudantes. No entanto, qual melhor caminho? Como construir o currículo? O que devemos ensinar?

De acordo com o parâmetro curricular (1997, pg. 77):

“Para que a aprendizagem em música possa ser fundamental na formação de cidadãos é necessário que todos tenham a oportunidade de participar ativamente como ouvintes, interpretes compositores e improvisadores, dentro e fora da sala de aula. Envolvendo pessoas de fora no enriquecimento do ensino e promovendo interação com os grupos musicais e artísticos das localidades, a escola pode contribuir para que os alunos se tornem ouvintes sensíveis, amadores talentosos ou músicos profissionais”.

Assim com a matemática na escola não tem a intenção de formar teóricos matemáticos e tampouco português, literatura e redação de formar grandes escritores. A educação musical nas escolas hoje precisa encontrar o lugar que ficou reservado a ela. Bem como a construção de sua estrutura e prática pedagógica no interior das escolas. Diante disso, Hentschke, afirma que:

“… os problemas que enfrentamos na área da educação musical vão desde a falta de institucionalização e reconhecimento do valor da educação musical como disciplina integrante do currículo escolar até a falta de sistematização do ensino da música, seja este como parte de ensino formal, bem como em muitas escolas de música”. (1993, p. 50)

Nesse sentido, nos lamentarmos dos devaneios e da falta de investimentos na educação para que a mesma possa ter sentido real na vida dos estudantes, não chegaremos a lugar algum. A escola é um espaço de construção e assim como nos sentimos tocados com uma boa música, um bom filme, uma boa pintura, peça, ou qualquer outra obra de arte, precisamos sensibilizar os alunos. E isso não é apenas papel dos professores da área de artes, todos podem sentir-se tocados. O ensino de modo geral tem que ser pensado com bastante ludicidade, prática e motivação.

“Talvez, possamos compreender melhor porque Dewey (1959, 2010) e Stenhouse (1987) viram o ensino como uma arte e os professores como artistas. Há uma sintonia entre o fazer, o pensar, o conteúdo e a forma, interconectando os fins e os meios na unicidade de ação e consequências: os fins são criados no próprio processo (EISNER, 1985, 1998); há aprendizagem na própria ação, na reflexão sobre a própria ação (SCHÖN, 1992); há envolvimento total (GARDNER, 1996). Há, no fazer artístico, estético, uma sintonia entre o pensar e o fazer, entre a prática e a teoria, entre o conteúdo e a forma”. (Martins, 2011 p.312).

Devemos romper padrões engessados. Há no fazer artístico uma intrínseca interdisciplinaridade onde a teoria e a prática caminham juntos, onde a reflexão e observação de sua própria ação são molas propulsoras de novas experiências. A educação musical agora é obrigatória nas escolas, mas a música como forma ou meios para educar não começou agora. Os alunos já chegam às escolas musicalizados com a sua cultura, com a TV, o rádio e o celular. “O artista é aquele que vê o mundo e o retrata com fidelidade.[…] É com esse mesmo conceito que professores e professoras (devem) olhar a produção da criança, esperando ver nela o “retrato do mundo”. (Martins, 2011 p.314). Através das experiências que são trazidas para a sala de aula.

Portanto, se professores estiverem presos a padrões pessoais, ao próprio gosto, ou simplesmente por apenas indicações de livros didáticos, a tendência será a desqualificação, a desvalorização da vivencia do aluno, sua dança, sua música, sua prática artística. Dessa maneira, o grande desafio da educação musical hoje é formar educadores capazes de ampliar o alcance da aprendizagem e a qualidade da experiência de seus alunos.

 

Referências

AUSUBEL, D. P. A aprendizagem significativa: a teoria de David Ausubel. São Paulo: Moraes, 1982.

BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: Arte. Brasilia: MEC/SEF, 1997.

HENTSCHKE (1993) “ Relações da prática com a teoria na educação musical”. In: Anais do II Encontro Anual da Abem. Porto Alegre: Abem, pp. 49-68.

MARTINS, Mirian Celeste Ferreira Dias – Arte, só na aula de arte? In Educação, Porto Alegre, v. 34, n 3, p 311 a 316, set./dez. 2011.

SWANWICK, Keith. Ensinando Música Musicalmente. Traduzido por Alda Oliveira e Cristina Tourinho, São Paulo: Moderna, 2003.

VICTORIO, M. O bê-a-bá do dó-ré-mí: reflexões e praticas sobre educação musical nas escolas de ensino básico. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2011.