O Significado da Música: Educação Musical e Cotidiano Escolar

 sala-de-aulaO que é música? Música é uma linguagem universal? Para Aronoff, “A música é uma experiência humana”. (1974, p. 34) Existe música nas mais diferentes organizações sociais do mundo. Pode-se afirmar então que a música é uma necessidade humana. Mas do ponto de vista sonoro, em que o som é matéria prima da música, até que ponto podemos considerá-lo música? Qualquer som pode ser combinado? Dessa maneira, qualquer som pode ser música? Um ruído, o canto dos pássaros, barulho das cidades, os sons da natureza, podem ser considerados como música?

Para Maura Penna, os pássaros não fazem música, apenas projetamos sobre eles”…uma experiência essencialmente humana.” (Maura Penna, 2015 p. 21). Na realidade estamos humanizando os pássaros. Mesmo assim, o homem cria técnicas que utilizam distintamente esses sons de acordo com os diferentes movimentos da arte: música concreta, eletroacústica, dodecfonismo, eletrônica, entre outros, onde o ruído e outros sons deixaram de ser um mero evento sonoro.  Para Nicole Jeandot, ouvir é diferente de escutar:

“Para ouvir, basta estarmos expostos ao mundo sonoro e possuirmos o aparelho auditivo em funcionamento. Nunca cessamos de ouvir, de receber as impressões dos ruídos, dos sons. Não podemos fechar a porta dos sons: não temos pálpebras auditivas.

Já a escuta envolve interesse, motivação, atenção. É uma atitude mais ativa que o ouvir, pois, selecionamos o mundo sonoro, aquilo que nos interessa. Dessa maneira, podemos perceber a música, seus elementos constituintes, como a tonalidade, os timbres, o andamento, o ritmo, etc”. ( Jeandot, 1990, p.21)

Para escutar é necessário uma “limpeza dos Ouvidos” (Murray Schafer). Por isso que muito sons do cotidiano passam despercebidos do dia-a-dia de muita gente. Diante dessas questões levantadas, como definir a música? Por ela ser abstrata e ao mesmo tempo “palpável”, por estar presente na vida de todos de diferentes maneiras, é realmente difícil de ter uma definição no sentido mais amplo. E por ser construída e reconstruída a cada local, momento e sofrer influências culturais, em cada parte do mundo ela pode ter um significado. E qual significado a música tem para os alunos? O que é música para eles? O que eles trazem e vivenciam também não é música?

Partindo desse pressuposto, propostas pedagógicas de compositores eruditos contemporâneos como Paynter, Aston e Schafer, baseiam-se no trabalho exploratório e criativo sobre o material sonoro sem julgá-lo pelo “juízo de valor” imposto pela sociedade que determina qual é a melhor música. Assim, poderíamos construir uma “Educação Libertadora” (Paulo Freire) onde considera-se as diferentes formas de interação que o indivíduo tem com o som ou com a música.

Nós educadores devemos estar atentos a isso. O mundo sonoro de hoje é completamente diferente do século passado. Tendo em vista que a escola não é a única que musicaliza, os alunos já chegam de certa forma “musicalizados”. A TV, o rádio, celular e os demais contatos do cotidiano, também devem ser levados em consideração. De acordo com Jasamara Souza, a musicalização “…é constituída de experiências que nós realizamos no mundo, de forma consciente e/ou inconsciente” (Jusamara Souza, 2009, p. 07).  O som é a primeira forma de comunicação com o mundo. Ainda no útero da mãe, a partir do quinto mês de gestação, a criança já interage com os sons do mundo externo. Alguns autores, entre eles Freud, chamam o útero da mãe de vivência oceânica. O feto é sensível ao ritmo sanguíneo, aos batimentos cardíacos, mas também a alguns sons do mundo exterior.

Nessa ótica, a relação do homem com o som, vai além de padrões estéticos e eruditos, que muitas vezes é imposto na sala de aula, como por exemplo: livros didáticos que não condizem com a realidade cultural do aluno, leitura de partituras, repertório de músicas que não fazem parte da vivencia do aluno. Não que o uso desses recursos devam deixar de ser utilizados, porém eles não podem ser as únicas ferramentas de musicalização e deixando de lado a espontaneidade sonora que os alunos carregam dentro do si. Nesse sentido, como diz Penna, as aulas de música não devem ser apenas “um procedimento da pedagogia musical” (2015, p.43).

Violeta Gainza afirma que,

“ […] o objetivo específico da educação musical consiste em colocar o homem em contato com seu ambiente musical e sonoro, descobrir e ampliar os meios de expressão musical, em suma, musicalizá-lo de uma forma mais ampla […]”. (Gainza, 1977, p.44)

Nessa perspectiva, “Aprender e Ensinar Música no Cotidiano” (Jusama Souza), é estar atento a todas as possibilidades de relação com a música no dia-a-dia dos estudantes. Levando em consideração as mídias, que estão cada vez mais presentes na vida das pessoas, e como os indivíduos interagem com essas mídias. O educador diante desses desafios pode encontrar ferramentas pedagógicas e aproximar o significado que a música tem para os alunos no seu cotidiano, e o significado que a música tem para os educadores.

Cabe ao educador trazer todas essas questões para a sala de aula de forma criativa, como por exemplo, o Re-arranjo[1] sugerido por Penna, é uma boa forma de elaborar uma música envolvendo a vivência  do aluno. Essa prática pode ressignificar alguns conceitos do censo comum sobre a música “boa” (erudita) e a música “ruim” (popular) tanto de educadores como de alunos. Tendo em vista que essa supervalorização da música mais elaborada e a desvalorização da música popular se deu por uma série de continuidades e descontinuidades da identidade da cultura musical brasileira.

Na tentativa de democratizar o acesso como forma de compensar sua falta, muitos espaços promovem shows gratuitos de orquestras, grupos de choro, bossa nova, entre outros estilos. Na maioria das vezes promovido pelos poderes públicos. E sem dúvida a gratuidade é importante e necessária para o processo de democratização, porém, não é garantia suficiente para um acesso democrático à música erudita. Por isso, a escola exerce papel importante no processo de democratização da música, tendo a musicalização como forma de construir instrumentos de percepção necessários para a apropriação das formas musicais mais elaboradas e complexas ao mesmo tempo em que reconhece a música do cotidiano dos alunos como ferramenta para a construção desse processo.

Garota de Ipanema em ritmo de pagode! Brasileirinho em ritmo de funk! Ode da Alegria em ritmo de forró! Por que não? A interação entre o erudito e o popular, o cotidiano e o conteúdo programático são necessários. Não se pode continuar cometendo os mesmos erros do passado. Os Jesuítas por exemplo, foram os primeiros professores de música do Brasil. Mas eles também foram os primeiros a impor a cultura européia como um padrão que desconsiderou os costumes indígenas. E hoje nos perguntamos: onde está a cultura indígena? Onde está a música indígena? Segundo Kiefer (1976, p. 10) “eles desaculturaram a tal ponto a música indígena que dela praticamente não restam vestígios na chamada música brasileira”.

No entanto, deve-se ter um equilíbrio entre o erudito e o popular para não haver uma guetização[2] onde um se opõe ao outro ao invés de se relacionar, além da guetização, há ainda intrínseco na cultura educacional o folclorismo[3] que valoriza uma redução do multiculturalismo, devido à prática de vincular o folclore às atividades, ao calendário das datas comemorativas. E isso faz com que muitos alunos ainda pensem que índio não se veste como outras pessoas ou que o dia da consciência negra é pra comer acarajé e ver roda de capoeira.

Diante desses paradigmas e da nova lei 11.769/2008 que estabelece o ensino de música obrigatório, como construir e como anda a construção do currículo de música nas escolas? A legislação não tem o poder de transformar a realidade cotidiana das salas de aula.  A organização e a prática escolar não é obra da legislação, ambas interagem. Nesse sentido, se professores estiverem presos a padrões pessoais, ao próprio gosto, ou simplesmente a indicações de livros didáticos, a tendência será a desqualificação, a desvalorização da vivência do aluno – sua dança; sua música; sua prática artística. Dessa maneira, o grande desafio da educação musical hoje é formar educadores capazes de ampliar o alcance e a qualidade da experiência de seus alunos.

Referências

ARONOFF, Frances Webber. La musica y El niño pequeño. Buenos Aires: editora Recordi, 1974.

GAINZA, Violeta Hemsy de. Fundamentos, materiales y tecnicas de la educación musical.Buenos Aires: editora Ricordi 1977.

JEANDOT, Nicole. Explorando o universo da música. São Paulo: editora Scipicione ltda 1990.

PENNA, Maura. Música (s) e seu ensino. 2ª edição revisada e ampliada. Porto Alegre: editora Sulina, 2015.

SOUZA, Jusamara. (Org.) Aprender e ensinar música no cotidiano. Porto Alegre: editora Sulina, 2009.

SCHAFER, Raymond Murray. O Ouvido pensante. Tradução de Marisa Trench de O. Fonterrada, Magda R. Gomes da Silva e Maria Lúcia Pascoal. São Paulo: UNESP, 1991.

KIEFER,  Bruno. História da música brasileira: dos primórdios ao início do século XX. Porto Alegre: Editora Movimento, 1976.

 

[1] Capítulo 9 do livro Música(s) e Seu Ensino de Maura Penna: Ressignificando e recriando música: a proposta do re-arranjo

 

[2]  Termo utilizado por Maura Penna onde “guetização” se refere o processo de fechar em guetos.

 

[3] Termo utilizado por Maura Penna onde “folclorismo” se refere a valorização de eventos folclóricos e práticas típicas.

13 thoughts on “O Significado da Música: Educação Musical e Cotidiano Escolar

  1. Muito bom o texto Sandro. Foi boa a leitura e me ajudou com a musicalização e entender que se faz no contexto social, até as crianças tem suas preferências e o professor de música precisa conhecê-las. Muito bom. Parabéns!

  2. Muito bom texto. Expresso aqui meus parabéns ao professor Sandro pelo empenho em fazer com que nossas crianças não se limitem ao que ja vem pronto, mas que vivenciem e se permitam sentir mais

    • Muito obrigado querida. Sempre será um prazer desenvolver projetos com crianças. Adoro incentivar a curiosidade e fomentar a criatividade. Isso pra mim é um combustível.

  3. Maravilhosa reflexão para nós que buscamos tornar esse mundo mais gostoso de viver através da Música, e na escola, levar nossas crianças a experimentá-la com leveza e mais prazer!
    Obrigado por partilhar seus conhecimentos musicais!!!

  4. Se todos entendermos sob essa ótica musical do maestro Sandro certamente nós e nossos filhos seríamos melhores em tudo.

  5. Excelente texto, oportunizar a música na escola para crianças de todas as idades é de muita grandiosidade. Parabéns pela belíssima reflexão e obrigada por compartilhar conhecimento.

  6. Parabéns ao Professor Sandro, que tanto bem vem fazendo para a música e para a educação.
    A produção de instrumentos tão simples nos propicia envolver, aos poucos, os alunos, numa prática pedagógica que reconhece a produção musical como uma janela para o mundo da sensibilidade e da cidadania.
    A música precisa fazer parte da educação de nossos meninos e meninas, e com este site, os produtos vendidos aqui e o trabalho do professor Sandro, certamente, cobriremos de sons os caminhos de uma aprendizagem significativa.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *